Copom surpreende o mercado e decide manter Selic em 6,50% ao ano

 

O Comitê de Política Monetária (Copom) surpreendeu o mercado ao manter a taxa básica de juros (Selic) em 6,50% ao ano, por unanimidade. A maioria das instituições apostava em um corte, pois o Banco Central havia sinalizado uma baixa em sua última ata.

“O cenário externo tornou-se mais desafiador e apresentou volatilidade. A evolução dos riscos, em grande parte associada à normalização das taxas de juros em algumas economias avançadas, produziu ajustes nos mercados financeiros internacionais. Como resultado, houve redução do apetite ao risco em relação a economias emergentes”, informou o comunicado do Comitê.

O economista-chefe do banco Santander, Maurício Molon, avalia que a decisão demonstra uma postura mais cautelosa do BC frente à volatilidade dos ativos financeiros internacionais e diante da depreciação da taxa de câmbio no Brasil (desvalorização do real frente ao dólar).

O comunicado do Copom ressaltou ainda que a decisão foi motivada pela “mudança recente no balanço de riscos para a inflação prospectiva e é compatível com a convergência da inflação para a meta”, que é de 4,5%. Além disso, o Comitê manteve as suas projeções de inflação abaixo do centro da meta, o que, para Molan, sinaliza que a autoridade monetária não alterou o seu cenário base, mas que, na verdade, mudou o seu balanço de riscos, com base na volatilidade externa.

“O Banco Central teve uma atuação de quem não quer adicionar volatilidade ao mercado para não abalar muito a confiança dos agentes locais”, reforça Molan. Ele avalia que o BC deixou em aberto os próximos passos. Isso porque, no comunicado, o Comitê diz que “vê como adequada a manutenção da taxa de juros no patamar corrente”, porém contrapõe que os “próximos passos da política monetária continuarão dependendo da evolução da atividade econômica, do balanço de riscos e das projeções e expectativas de inflação”. Porém, o economista-chefe do Santander não vê necessidade de aperto monetário (elevação de juros), uma vez que projeta que a taxa de câmbio do Brasil se estabilize em um patamar médio de R$ 3,50, até o final deste ano.

Atividade fraca

A maioria do mercado apostava em mais um corte de 0,25 ponto nos juros, diante da frustração com os indicadores de atividade. Ontem, o Índice de Atividade Econômica do BC (IBC-Br) registrou queda de 0,74% em março, ante fevereiro, surpreendendo negativamente. Os analistas previam variação entre -0,4% e +0,3%. No acumulado do primeiro trimestre de 2018, a economia brasileira recuou 0,13% ante o quarto trimestre de 2017.

No entanto, Molan argumenta que os dados de vendas no varejo e da produção industrial estão apontando que a atividade está indo “para cima”, diferentemente do IBC-Br. “Existe alguma distorção relacionada ao setor dos serviços, já que o ajuste de estoques [no início do ano] enfraqueceu o crescimento [do setor] no primeiro trimestre. Além disso há uma desaceleração da economia global que afetou temporariamente os números do primeiro trimestre. Porém, agora no segundo existe uma perspectiva melhor [para o cenário externo]”, afirma Molan, ressaltando que não é adequado fazer uma leitura de que a economia está caindo. Ele mantém projeção de alta de 3,2% para o Produto Interno Bruto (PIB) em 2018.

Sobre os riscos internacionais, o professor de economia do Ibmec-SP, Walter Franco, comenta que a alta da taxa de juros dos Estados Unidos (EUA) é um fator preocupante. “As taxas de juros de longo prazo do Tesouro americano ultrapassaram a barreira de 3% de rendimento ao ano [na última terça-feira]. Ou seja, há títulos americanos pagando, em dólar, uma rentabilidade muito interessante”, pontua Franco, do Ibmec-SP.

Ele esclarece que a inflação dos EUA está rodando a 2%, o que significa que um investidor norte-americano está sujeito a um rendimento real de 0,9% ao ano. O investidor estrangeiro, por outro lado, por não consumir no mercado interno dos EUA, consegue ter uma rentabilidade de 3% na compra de títulos americanos.

Esse cenário de maior atratividade do capital estadunidense pode, portanto, provocar mais evasão de divisas do Brasil, pressionando o dólar. “A economia dos EUA está aquecida faz tempo e crescendo bastante. O Fed [Federal Reserve, banco central norte-americano] terá o cuidado de manter a inflação baixa”, considera o professor do Ibmec-SP.

Repercussão

A Federação das Indústrias do Estado São Paulo (Fiesp) afirmou que a manutenção da Selic retardará ainda mais a redução do custo do crédito. “Corremos o risco de ver morrer a retomada da economia, num momento em que o Brasil tenta sair de sua pior crise. O crescimento ainda é muito frágil – e só vai ganhar força se ficarem em nível razoável os juros para quem quer investir e consumir”, afirma a nota. “Crédito caro joga contra o país. Chega de engolir o sapo dos juros mais altos do mundo”, acrescentou o comunicado.

Após a decisão, o Itaú Unibanco anunciou nova redução nos juros cobrados no cheque especial e no empréstimo pessoal, ainda que o BC tenha mantido a Selic. A nova taxa média praticada de cheque especial sai de 11,90% para 11,50% ao mês. No ano, a queda já é de 1,23 ponto percentual ao mês. As redução passam a valer a partir do dia 21.

“Estamos comprometidos com o processo de redução das taxas de juros para os clientes e temos feito sucessivos cortes em diversas linhas de produtos nos últimos meses. Temos consciência da relevância do nosso papel no processo de recuperação da economia, por meio da concessão de crédito”, diz Candido Bracher, presidente do Itaú Unibanco, após o comunicado do Banco Central.

Fonte – DCI Por Paula Salati

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